Biografia

O Toni perdeu a voz. Foi um Deus nos acuda!
E liga pro Marcondes..., busca o Siri (João) ...,
liga pro Oldair..., pro Neno... até o Capucci
(com aquele sotaque mineiro bem típico dele,
disse “beleza”) e entrou na jogada.
Toni tinha que tocar aquela noite lá no bar e sem voz não dava.
Aí foi todo mundo ajudar e fizemos os cálculos: se cada um
tocar um tempo, dá pra encher uma noitada e acaba resolvendo.
O dono nem vai notar. Combinado. E lá fomos nós.
Toni argumentou: - Nada de música internacional!
Defensor ferrenho da música brasileira. Tá explicado. A gente riu dele:
a noite é sua. Marcondes com sua mansidão habitual abriu os trabalhos,
e todo mundo foi se revezando. Era cantor que não acabava mais.
Me dá um “dóla” aí, me aparece João velozo (o baixista mais
folgado do planeta) e mandamos ele pro palco.
Lá pelas tantas ouvimos alguém dizer:
- Toca uma do Clube do Som!!!
A essa altura nosso velho amigo Toni, já estava enciumado,
“O quê que este bando de caras tão fazendo aqui no meu espaço?”
Gritou de lá do meio do alvoroço: - Minha voz voltou!
Já passava da meia-noite, e ele finalmente empunhou
seu violão e cantou mais de 3 dúzias de canções antes do dia raiar...
Não sei se foi realmente assim que aconteceu, pois o tempo
tende a confundir a gente, mas a julgar que eu era a pessoa
mais lúcida no meio daquela festa, fica registrado a partir de
hoje, que esta é a versão oficial daquela noite,
até que algum de nós conte melhor que eu...

 

A CASA DO IMPROVÁVEL

Costumo brincar dizendo que se o destino nos tirou Iuri Vieira, nosso irmão, o destino também se encarregou de deixar duas pessoas aqui junto da gente pra ir substituindo ele enquanto isso aqui na terra. A metade Vieira está em Marcondes (Vieira por coincidência), que “todo mundo sabe” de tantas coisas que já passamos juntos e quantas ainda passaremos. O outra metade está em Yuri Pierre (com Y mas é Iuri também), um amigo inteligente, talentoso, sarcástico e bem humorado, que não cansa de me presentear com anuários de propaganda e me indicar boas leituras e bons filmes.

Quando um dia destes, estava pensando nas loucas teorias que me acometem de vez em quando, pensei naquela do “Berço dos Gigantes”. É assim que vejo a Ceilândia. Abri o jornal um dia destes e me deparei com Edi Silva, ganhando 1º Lugar no Concurso de textos inéditos para Teatro. Ligo a TV e lá está Dillo Daraujo num videoclipe. Pela internet descubro que Léo Maravilha e sua Acadêmicos de Brazlândia, fundada com o “know-how” de ceilandenses é o bloco campeão do Carnaval 2006. E por aí se vai. São pessoas que passam por esta casa, e súbito me lembro do Professor Jevan, o historiador da Ceilândia, figura ímpar no quesito memória da cidade, e seu Museu da Memória Viva, situado no Setor “P” Sul.

Conversas de cozinha, tomando um café (às vezes fraco demais do Bei) nunca pode deixar de ter. É lá que surgem conspirações, idéias, divagações, roteiros de filmes que nunca serão feitos, paródias, brincadeiras, coisas sérias, algumas brigas e, de vez em quando, alguém assoviando. Se o Broba (Raimundo Tabosa) aparece, aí tem que dobrar a medida do café, pois só ele toma uma garrafa sozinho.

Se durante muito tempo me perguntei de onde vem a musicalidade da minha família, que sempre pensei ter herdado apenas de meu pai, Moisés Gonçalves, que de vez em quando tocava uma flauta doce, ou batucava num afoxé artesanal, construído por ele mesmo, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o meu avô materno foi um baita violeiro repentista lá das bandas do norte de Minas Gerais. Cabra daqueles que são capazes de parar uma cidade com seu talento e carisma, que conquistou muitas amizades, e porque não dizer muitas encrencas também. Nunca desconfiei disso, porque minha mãe Dona Zeca, foi um pessoa muito reservada, uma mulher de fibra, trabalhadora incansável, de um coração tão bondoso, que as pessoas que a conheceram ainda fala dela com muita admiração, e se emocionam mesmo depois de tanto tempo que ela se foi.

Sei que a mistura genética, que resultou a gente deu nisso aí. Do sangue dos Zimmer-Collen, a ascendência alemã misturado com o clã dos Vieiras do povoado longínquo de Machado, meu pai e minha mãe vieram fazer não sei o que em Brasília. Acho que vieram sobreviver a algo, pois esta parte da história eu não conheço. Minha terra é a Ceilândia onde cresci e vivo.

Dizem que os Vieira-Gonçalves, fazem história todo dia, e que não tiveram tempo ao longo destes anos de contar alguma coisa. Neste exato momento, já estamos inventando alguma coisa.

Aqui no Zimmer-Collen Studio tem tecladista de forró, violonista erudito, escola de samba e até um cara que insiste em gravar um disco tocando todos os instrumentos. Volta em meia, presencio "escambos musicais". É isso mesmo, tá cheio de violão empenhado (não confundir com empenado) no pagamento das gravações.

O 1º disco do Clube do Som demorou 8 anos pra sair, mas saiu. O tempo, na verdade, é um invenção, a gente sempre soube disso. Cada um inventa a desculpa que pode, dependendo de sua criatividade. Mas criatividade é algo que nunca faltou aqui em casa. Quando as coisas não estão muito boas, eu coloco um disco dos Beatles ou do Boca Livre, aí tudo fica certo. Aí chega um amigo, e eu esqueço os problemas, estes problemas do dia-a-dia que a gente nem deveria gastar o nosso precioso tempo lembrando.

A Casa do Improvável é assim. Eu nunca sei quem vai aparecer, nem preciso saber. Uma parte do Clube do Som está aqui. Se você quiser aparecer um dia pra tomar um café (eu juro que peço pro Bei caprichar), sinta-se convidado.


Por Neno Vieira

 

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